Programa Agora Tem Especialistas 2026

Saúde pública • Tributário • Regularização fiscal

Análise técnico-institucional sobre a estratégia federal de redução de filas no SUS, com foco na participação de hospitais privados, filantrópicos e sem fins lucrativos, na emissão do Certificado de Valor de Crédito Financeiro e no uso desses créditos para regularização de débitos federais.

Lei nº 15.233/2025 InvestSUS CVCF PGFN e Receita Federal A partir de 2026
8 componentes estruturantes do Agora Tem Especialistas.
R$ 2 bi limite anual global de créditos financeiros previsto em lei.
1.279 procedimentos cirúrgicos possíveis na matriz de oferta.
34 OCIs Ofertas de Cuidado Integrado em áreas prioritárias.

1. Visão geral do Programa Agora Tem Especialistas

O Programa Agora Tem Especialistas, também identificado oficialmente como ATE, foi estruturado como uma política pública nacional para ampliar o acesso da população a consultas, exames, cirurgias, diagnósticos e tratamentos especializados no âmbito do Sistema Único de Saúde.

A política se insere em um contexto de represamento histórico de demandas assistenciais, especialmente em procedimentos especializados e cirurgias eletivas. Após a pandemia de COVID-19, esse desafio tornou-se ainda mais sensível, exigindo instrumentos de indução, financiamento, regulação e contratação capazes de integrar a rede pública, a rede filantrópica, hospitais privados, hospitais universitários, unidades móveis, telessaúde e mecanismos tributários de regularização fiscal.

Validação técnica: o programa não deve ser apresentado apenas como uma ação isolada de mutirões. Ele consolida políticas anteriores, reorganiza a atenção especializada e combina componentes assistenciais, digitais, regulatórios, formativos e fiscais.

Evolução institucional

2023 — PNRF

O Programa Nacional de Redução de Filas concentrou esforços na ampliação da realização de cirurgias eletivas e na redução de demandas represadas.

2024 — PMAE

O Programa Mais Acesso a Especialistas ampliou a abordagem para consultas, exames especializados e organização de ofertas integradas de cuidado.

2025 — ATE

O Agora Tem Especialistas unificou e expandiu iniciativas anteriores, passando a operar por componentes articulados e regras próprias de adesão e execução.

2. Estrutura dos oito componentes do programa

A divisão em componentes permite que o Ministério da Saúde organize frentes distintas de atuação, com instrumentos próprios de gestão, monitoramento, financiamento e integração com estados, municípios e prestadores de serviços.

Componente Descrição Finalidade operacional
Ambulatorial Organiza consultas, exames e procedimentos por meio de Ofertas de Cuidado Integrado. Reduzir a fragmentação da jornada do paciente e acelerar diagnóstico e cuidado especializado.
Cirúrgico Direcionado à realização de cirurgias eletivas prioritárias. Diminuir filas históricas e ampliar a capacidade cirúrgica do SUS.
Acesso à radioterapia Medidas de expansão e qualificação do atendimento radioterápico. Reduzir gargalos no tratamento oncológico e no acesso oportuno à radioterapia.
Créditos financeiros Permite a concessão de créditos a hospitais participantes que realizem serviços ao SUS. Converter produção assistencial validada em crédito utilizável para regularização de débitos federais.
SUS Digital Fortalece telessaúde, interoperabilidade e integração de dados. Apoiar regulação, monitoramento e acompanhamento da jornada do paciente.
Ressarcimento ao SUS Possibilita conversão de valores devidos por operadoras de planos de saúde em prestação de serviços. Transformar obrigações de ressarcimento em atendimento assistencial direto, conforme regulamentação.
Provimento e formação Inclui medidas de formação, qualificação e fixação de médicos especialistas. Ampliar a disponibilidade de especialistas em áreas e regiões prioritárias.
Serviços especializados complementares Utiliza parcerias, unidades móveis e capacidade complementar contratada. Levar atendimento especializado a regiões com menor densidade assistencial.

3. O componente de créditos financeiros

O componente de créditos financeiros é uma das inovações mais relevantes do Agora Tem Especialistas. A lógica central é permitir que hospitais privados, com ou sem fins lucrativos, prestem serviços assistenciais ao SUS e, após validação da produção pelo Ministério da Saúde, recebam um Certificado de Valor de Crédito Financeiro.

Esse certificado, conhecido como CVCF, pode ser utilizado para compensação ou quitação de débitos federais próprios, observadas as regras da Receita Federal do Brasil, da Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional e da legislação específica do programa.

1. Serviço prestado

O hospital realiza procedimentos, consultas, exames ou cirurgias incluídos na matriz de oferta aprovada pelo Ministério da Saúde.

2. Produção validada

A produção assistencial é registrada nos sistemas oficiais do SUS e submetida à análise técnica, regulação e auditoria.

3. Crédito utilizado

Após emissão do CVCF, o crédito pode ser indicado para débitos próprios no âmbito da Receita Federal ou da PGFN.

Atenção: os créditos financeiros do programa possuem finalidade tributária específica. Não devem ser descritos como valores mobiliários, título de investimento ou ativo negociável livremente no mercado.

Elegibilidade e matriz de oferta

A instituição interessada deve manifestar adesão por meio do InvestSUS e apresentar sua matriz de oferta assistencial. A análise envolve capacidade operacional, dados do CNES, disponibilidade regional, pactuação federativa e compatibilidade com as linhas de cuidado priorizadas.

Cardiologia Ginecologia Oftalmologia Oncologia Ortopedia Otorrinolaringologia

As Ofertas de Cuidado Integrado, chamadas de OCIs, são relevantes porque agrupam atos assistenciais relacionados a uma etapa de cuidado, evitando que o paciente seja reinserido sucessivas vezes em filas diferentes para concluir diagnóstico, exames e encaminhamentos.

5. Fluxo operacional: do atendimento à quitação do débito

O fluxo do componente de créditos financeiros exige integração entre sistemas do Ministério da Saúde, registros assistenciais do SUS, Receita Federal, PGFN e os ambientes digitais de autenticação e assinatura do representante legal.

1

Adesão e apresentação da matriz de oferta

A instituição acessa o InvestSUS, manifesta interesse no componente de créditos financeiros e apresenta sua matriz de oferta, indicando procedimentos, especialidades e capacidade operacional. A Secretaria de Atenção Especializada à Saúde analisa a proposta com base no CNES, na demanda regional e na pactuação assistencial.

2

Execução dos atendimentos e registro nos sistemas oficiais

Após a adesão e a pactuação, o hospital passa a atender pacientes encaminhados pela regulação local. A produção deve ser registrada nos sistemas oficiais, como SIA/SUS e SIH/SUS, conforme as regras técnicas definidas para cada procedimento e linha de cuidado.

3

Apuração da produção e emissão do CVCF

O Ministério da Saúde apura a produção aprovada e emite o Certificado de Valor de Crédito Financeiro. O certificado deve indicar o valor disponível, o órgão destinatário e a vinculação à produção assistencial validada.

  • O crédito depende de produção efetivamente registrada e validada.
  • A emissão está sujeita a critérios mínimos e regras de certificação.
  • A instituição deve manter regularidade com os termos assumidos.
4

Indicação do crédito na PGFN ou Receita Federal

Com o CVCF emitido, o hospital pode indicar o crédito para uso em negociações, parcelamentos ou débitos federais próprios, conforme o caso. Na PGFN, o fluxo ocorre pelo portal REGULARIZE; na Receita Federal, o procedimento é realizado pelo e-CAC ou por serviço digital equivalente.

  • Débitos de FGTS e contribuições da LC nº 110/2001 não entram nesse fluxo.
  • O hospital deve indicar os débitos que pretende liquidar.
  • Pode haver necessidade de renúncia a impugnações, recursos ou ações relativas aos débitos indicados.

6. Gestão digital, conta gov.br e segurança

A operação do programa envolve atos digitais sensíveis, como adesão, assinatura de termos, indicação de créditos e eventual renúncia a discussões administrativas ou judiciais. Por isso, a instituição deve manter governança interna sobre usuários, perfis de acesso, procurações eletrônicas, certificado digital e autenticação gov.br.

Conta gov.br Prata

Normalmente obtida por validação facial com CNH, validação bancária ou outros meios aceitos pela plataforma gov.br. Eleva o grau de confiança da identidade digital.

Conta gov.br Ouro

Pode ser obtida por validação facial em base da Justiça Eleitoral, Carteira de Identidade Nacional ou certificado digital ICP-Brasil, conforme as opções vigentes.

Boa prática: hospitais participantes devem revisar previamente quem possui poderes para acessar InvestSUS, e-CAC e REGULARIZE, evitando que a indicação de créditos ou a assinatura de termos seja feita por pessoa sem poderes societários, procuração ou autorização interna.

7. Especialidades prioritárias e impacto assistencial

O programa concentra esforços em áreas com grande demanda reprimida e impacto direto na qualidade de vida, no prognóstico clínico e na redução de agravamentos evitáveis.

Especialidade Ação dentro do programa Resultado esperado
Oncologia Diagnóstico, exames, regulação e ampliação de acesso à radioterapia. Reduzir o tempo entre suspeita, confirmação diagnóstica e início do tratamento.
Cardiologia Consultas, exames, OCIs e procedimentos de maior complexidade. Agilizar o cuidado de pacientes com risco cardiovascular relevante.
Ortopedia Cirurgias eletivas, mutirões e organização de filas por prioridade. Diminuir filas de procedimentos com impacto funcional, como quadril, joelho e coluna.
Oftalmologia Consultas, exames, unidades móveis e cirurgias como catarata. Reduzir cegueira evitável e ampliar acesso em regiões desassistidas.
Ginecologia Consultas, exames preventivos e linhas integradas de cuidado. Ampliar o cuidado especializado à saúde da mulher.
Otorrinolaringologia Consultas, exames e procedimentos especializados. Reduzir filas em condições que afetam audição, respiração, fala e qualidade de vida.

A habilitação de hospitais e a definição de limites individuais de crédito devem ser conferidas em portarias específicas de habilitação, pois os valores podem variar conforme o estabelecimento, a capacidade instalada, a pactuação regional e a matriz de oferta aprovada.

8. Telessaúde, unidades móveis e expansão geográfica

A desigualdade territorial no acesso a especialistas é um dos principais desafios do SUS. Por isso, o Agora Tem Especialistas combina atendimento presencial, serviços móveis, telessaúde, transporte sanitário e regulação integrada.

Unidades móveis

Carretas e estruturas itinerantes podem levar consultas, exames e procedimentos a regiões com baixa densidade tecnológica.

Telessaúde

Apoia a comunicação entre profissionais, acelera avaliações especializadas e evita deslocamentos desnecessários.

Regulação integrada

Permite acompanhar a jornada do paciente e organizar o encaminhamento conforme prioridade clínica e disponibilidade regional.

9. Sustentabilidade, financiamento e governança

A sustentabilidade do programa depende de controle fiscal, qualidade do registro assistencial, monitoramento das filas e capacidade dos entes federativos de pactuar e encaminhar pacientes à rede habilitada.

Além do mecanismo de créditos financeiros, o Ministério da Saúde também pode instituir repasses e incentivos vinculados à Atenção Primária, Média e Alta Complexidade, conforme portarias específicas. Recursos dessa natureza devem observar finalidade pública, execução em ações e serviços de saúde e vedações aplicáveis, como a impossibilidade de uso em despesas de capital quando a norma assim estabelecer.

Controle fiscal: o limite anual global de R$ 2 bilhões para créditos financeiros funciona como trava de responsabilidade fiscal, permitindo que a expansão assistencial seja acompanhada de controle orçamentário e auditoria.

Riscos operacionais para hospitais participantes

Registro assistencial inconsistente

Falhas no SIA/SUS, SIH/SUS, CNES ou nos códigos de procedimento podem impedir a validação da produção e a emissão do crédito.

Débito mal indicado

A indicação incorreta de inscrições, parcelamentos ou débitos pode atrasar a utilização do crédito perante Receita Federal ou PGFN.

Ausência de poderes digitais

Usuários sem procuração, perfil ou poderes societários adequados podem gerar bloqueios no InvestSUS, e-CAC ou REGULARIZE.

Renúncia sem análise jurídica

A liquidação de débitos pode exigir renúncia a recursos, defesas ou ações. Essa etapa deve ser avaliada antes da indicação do crédito.

10. InvestSUS e suporte técnico

O InvestSUS é a principal porta de entrada para a formalização de propostas, adesões, acompanhamento de recursos federais e gestão de instrumentos financeiros vinculados ao Ministério da Saúde.

Para operar o sistema, a instituição deve observar regras de cadastro, perfis de acesso, permissões no SCPA e autorização de usuários responsáveis. Em geral, perfis como dirigente de entidade, técnico institucional ou responsável operacional possuem níveis diferentes de visualização, preenchimento, assinatura e envio de informações.

Recomendação prática: antes de protocolar matriz de oferta ou indicar crédito, reúna CNES atualizado, atos societários, procurações, certidões fiscais, comprovantes de regularidade, dados bancários, relatórios de produção e documentos internos de autorização.

11. Conclusão

O Programa Agora Tem Especialistas representa uma tentativa de reorganização estrutural da atenção especializada no Brasil. Ao combinar financiamento, contratação complementar, telessaúde, unidades móveis, provimento de especialistas e créditos financeiros, o programa busca enfrentar gargalos históricos do SUS de maneira mais integrada.

O componente de créditos financeiros merece atenção especial porque une dois problemas relevantes: a necessidade de ampliar a oferta assistencial à população e a existência de passivos tributários em instituições privadas e filantrópicas de saúde. Quando corretamente executado, o modelo permite transformar capacidade hospitalar em atendimento concreto, produção assistencial validada e regularização fiscal.

O sucesso do mecanismo, contudo, depende de governança técnica rigorosa. A instituição participante precisa registrar corretamente os atendimentos, manter CNES compatível com a oferta apresentada, observar as regras de adesão e utilizar o CVCF com segurança jurídica, tributária e documental.

12. Perguntas frequentes

Hospitais privados podem participar do componente de créditos financeiros?

Sim. O programa admite a participação de hospitais privados, com ou sem fins lucrativos, desde que observadas as regras de adesão, habilitação, matriz de oferta, produção assistencial e regularização fiscal.

O crédito financeiro pode quitar qualquer dívida?

Não. O crédito deve ser utilizado conforme as regras da Receita Federal e da PGFN. Débitos de FGTS e contribuições da Lei Complementar nº 110/2001 não fazem parte do fluxo de utilização previsto para o programa.

O atendimento gera crédito automaticamente?

Não. O atendimento precisa ser registrado, validado e aprovado nos sistemas oficiais. Somente a produção reconhecida pelo Ministério da Saúde pode compor a base para emissão do CVCF.

É necessário analisar riscos jurídicos antes de usar o crédito?

Sim. A utilização do crédito pode envolver indicação de débitos, negociação tributária, renúncia a discussões e efeitos sobre parcelamentos. A análise jurídica, contábil e fiscal é recomendável antes da formalização.

Precisa organizar a adesão ou revisar a documentação do programa?

A Direto Legaliza pode apoiar a conferência documental, análise de poderes digitais, organização de certidões, leitura das normas aplicáveis, preparação de checklist interno e orientação sobre o fluxo entre InvestSUS, e-CAC, REGULARIZE, Receita Federal e PGFN.

Falar com a Direto Legaliza

13. Fontes oficiais consultadas

Conteúdo informativo, elaborado com base em fontes oficiais disponíveis na data de validação. A aplicação prática depende da situação fiscal, assistencial e documental de cada instituição.