Levantamento de Declinação Magnética, Estabelecimento e Calibração de Rosa-dos-Ventos
Guia técnico sobre fundamentos geomagnéticos, aplicação aeronáutica, metodologia de campo, instrumentos utilizados, etapas administrativas, custos e atuação do Laboratório de Desenvolvimento de Sensores Magnéticos do Observatório Nacional — LDSM-ON.
1. Campo magnético terrestre e declinação magnética
O campo magnético terrestre é uma estrutura dinâmica associada principalmente aos processos existentes no núcleo externo da Terra. Como consequência dessa dinâmica geofísica, os polos magnéticos não coincidem com os polos geográficos e suas posições e características variam ao longo do tempo.
Em determinado ponto da superfície terrestre, denomina-se declinação magnética a diferença angular entre a direção do Norte Verdadeiro — relacionada aos meridianos geográficos — e a direção do Norte Magnético indicada por um instrumento magnético devidamente compensado.
Referência geográfica
Está relacionado ao meridiano local e à direção do Polo Norte geográfico.
Referência geomagnética
Relaciona-se à orientação assumida por instrumentos sensíveis ao campo magnético terrestre, sujeita à declinação local e a eventuais perturbações.
A determinação precisa dessa diferença angular é relevante para aplicações marítimas, terrestres, aeronáuticas, geofísicas e militares, especialmente quando instrumentos ou sistemas utilizam referências magnéticas para orientação.
2. Relação entre referências verdadeiras e magnéticas
A navegação pode exigir conversões entre grandezas referidas ao Norte Verdadeiro e grandezas referidas ao Norte Magnético. Adotando-se a convenção em que a declinação a Leste é positiva e a Oeste é negativa, uma forma usual de representar a conversão é:
3. Variação secular do campo magnético e impacto nas pistas
O campo geomagnético não é estático. Mudanças lentas observadas ao longo dos anos e décadas são conhecidas como variação secular. Essa variação modifica gradualmente a declinação magnética de cada localidade.
Não existe, porém, uma taxa única de alteração aplicável indistintamente a todo o território brasileiro. A magnitude e a direção da variação dependem da posição geográfica e do período considerado. Por isso, medições locais e modelos geomagnéticos atualizados são necessários para aplicações que exijam elevada precisão.
Designadores de pista
As pistas de pouso e decolagem são identificadas por números associados à sua orientação magnética. De acordo com a regulamentação aeronáutica, o designador utiliza um número de dois algarismos relacionado ao azimute magnético aproximado da pista quando observado na direção de aproximação.
Uma orientação magnética próxima de 096° resulta, em regra, no designador 10; a direção oposta, próxima de 276°, corresponde ao designador 28. Em pistas paralelas, letras como L, C e R podem complementar os números.
À medida que a declinação magnética evolui, uma pista pode atingir um ponto em que sua designação precisa ser atualizada. A alteração envolve publicação da informação aeronáutica pertinente e atualização das sinalizações, cartas e demais referências operacionais aplicáveis.
| Aeroporto | Designação histórica | Designação posterior | Contexto |
|---|---|---|---|
| Manaus — Eduardo Gomes (SBEG) | 10 / 28 | 11 / 29 | Documentos históricos e posteriores do AISWEB/DECEA evidenciam a mudança do designador associada à referência magnética. |
| Foz do Iguaçu — Cataratas (SBFI) | 14 / 32 | 15 / 33 | A documentação aeronáutica de diferentes períodos registra a atualização dos designadores. |
| São Paulo — Guarulhos (SBGR) | 09L/27R e 09R/27L | 10L/28R e 10R/28L | Mudança efetivada no ciclo AIRAC em 8 de setembro de 2022, conforme publicação do DECEA. |
Alterações relevantes na referência magnética também podem demandar nova verificação das áreas e referências utilizadas para calibração em solo, inclusive rosas-dos-ventos empregadas no alinhamento e na verificação de bússolas e sensores magnéticos.
4. Estrutura institucional e capacidade tecnológica do LDSM-ON
O Observatório Nacional — ON é uma unidade de pesquisa vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação — MCTI e desenvolve atividades científicas e tecnológicas, entre outras áreas, em geofísica e geomagnetismo.
O monitoramento geomagnético brasileiro inclui estruturas históricas como o Observatório Magnético de Vassouras, no Rio de Janeiro, em operação contínua desde 1915, e o Observatório Magnético de Tatuoca, no Pará, em operação desde 1957. Os dois constam entre as estruturas brasileiras integrantes da rede internacional INTERMAGNET.
Observatório Magnético de Vassouras
Estrutura histórica de acompanhamento do campo geomagnético brasileiro, com série observacional iniciada em 1915.
Observatório Magnético de Tatuoca
Estação geomagnética localizada no Pará e em operação desde 1957, importante para medições em baixas latitudes.
Dentro dessa estrutura encontra-se o Laboratório de Desenvolvimento de Sensores Magnéticos — LDSM-ON. O laboratório atua no desenvolvimento e construção de sensores magnéticos de alta resolução, metrologia magnética, determinação do Norte Verdadeiro, implantação e atualização de raias magnéticas e calibração de bússolas e magnetômetros.
O LDSM desenvolveu tecnologia própria de sensores e magnetômetros do tipo fluxgate. O Observatório Nacional registra a utilização de materiais magnéticos amorfos, incluindo ligas com cobalto, ferro, silício e boro, na construção de sensores de elevada sensibilidade.
O laboratório também possui histórico de transferência internacional de tecnologia. Segundo o ON, sensores fluxgate de alta resolução foram exportados para o Instituto Indiano de Geomagnetismo, constituindo um marco de exportação de tecnologia desenvolvida na instituição.
Infraestrutura de calibração e blindagem magnética
A infraestrutura técnica do ON inclui recursos voltados a ensaios e calibração de sensores e magnetômetros, entre eles bobinas de Helmholtz, instrumentação eletrônica e sistemas de blindagem magnética destinados à redução da influência de campos externos durante determinados procedimentos de laboratório.
Atuação junto às Forças Armadas e ao setor aeronáutico
O histórico institucional demonstra aplicações civis e militares da tecnologia desenvolvida pelo LDSM. O Observatório Nacional registra, por exemplo, o desenvolvimento e fornecimento de magnetômetros para a Marinha do Brasil e atividades de calibração destinadas a instrumentos aeronáuticos.
Em 2017, o ON divulgou a entrega de 35 magnetômetros fluxgate especialmente desenvolvidos para a Marinha do Brasil, com aplicação em procedimentos de assinatura magnética naval.
Mais recentemente, o Observatório Nacional avançou no projeto de uma estação magnética automática em Fernando de Noronha, equipada inicialmente com magnetômetro fluxgate de alta resolução desenvolvido no LDSM e contando com apoio da Força Aérea Brasileira, inclusive do Parque de Material Aeronáutico do Galeão — PAMA-GL.
O ON também registra em sua trajetória técnica serviços para empresas e instituições do setor aeronáutico, incluindo implantação ou aferição de referências magnéticas e calibração de bússolas e sensores.
5. Metodologia e protocolo técnico de campo
Segundo a descrição oficial do serviço no Portal Gov.br, o levantamento de declinação magnética e a implantação ou calibração de rosa-dos-ventos seguem uma sequência técnica voltada à identificação de interferências e ao estabelecimento de referências geomagnéticas confiáveis.
Sondagem magnética do local
Realiza-se uma sondagem com magnetômetro absoluto para identificar possíveis anomalias ou interferências magnéticas. A área escolhida deve apresentar condições adequadas para o levantamento.
Determinação das referências geográficas
São determinadas e marcadas referências geográficas locais que permitirão relacionar as orientações magnéticas ao Norte Verdadeiro.
Medição dos parâmetros geomagnéticos
A equipe utiliza instrumentos como estação total, giro-teodolito e magnetômetro do tipo DI-Flux para obter os parâmetros necessários ao levantamento.
Cálculo e marcação
Com os dados obtidos, são calculadas e marcadas as orientações e coordenadas magnéticas nos pontos de referência locais, permitindo eventual traçado da rosa-dos-ventos ou determinação da declinação magnética.
Relatório técnico
Ao final são consolidadas as informações relevantes do levantamento, incluindo, quando aplicável, ilustrações das marcações de referência. O fluxo administrativo oficial também prevê o recebimento do documento/certificado após a comprovação do pagamento quando houver faturamento.
Principais instrumentos empregados
| Instrumento | Função | Grandeza ou referência |
|---|---|---|
| Magnetômetro absoluto | Sondagem e identificação de anomalias ou interferências magnéticas no local. | Campo magnético e suas variações locais |
| Giro-teodolito | Apoio à determinação de azimutes e referências geográficas. | Direção geográfica / Norte Verdadeiro |
| Magnetômetro DI-Flux | Instrumento utilizado em medições absolutas de declinação e inclinação magnéticas. | Declinação (D) e inclinação (I) |
| Estação Total | Apoio topográfico à geometria, aos ângulos e à amarração das referências em campo. | Ângulos, posições e referências espaciais |
6. Por que a análise do magnetismo ambiental é essencial?
Uma rosa-dos-ventos de calibração somente é útil quando as referências magnéticas locais são tecnicamente confiáveis. Estruturas metálicas, redes elétricas, veículos, tubulações, equipamentos energizados, materiais ferromagnéticos e determinadas características geológicas podem produzir perturbações no campo local.
Por esse motivo, a primeira fase do trabalho oficial consiste justamente na sondagem da área. O objetivo é evitar que uma referência implantada no solo incorpore um erro local que posteriormente seja transferido para bússolas ou sensores submetidos à calibração.
7. Procedimento administrativo para solicitar o serviço
O serviço está disponível no Portal Gov.br e é direcionado, principalmente, a empresas de navegação aérea, aeroportos civis e militares e empresas de manutenção de aeronaves.
Agendamento junto ao LDSM-ON
A solicitação é encaminhada por e-mail à equipe técnica. O Portal Gov.br informa duração de até 3 dias úteis para essa etapa.
E-mails: andrew@on.br e benyosef@on.br.
Visita técnica
O atendimento é executado presencialmente no local indicado pelo solicitante. A página oficial informa espera estimada de até 3 dias corridos e duração de até 3 dias corridos, observando ainda o tempo necessário para deslocamento.
Faturamento, quando aplicável
A etapa oficial de pagamento e emissão de nota fiscal é realizada por intermédio da Fundação de Apoio ao Desenvolvimento da Computação Científica — FACC.
Comprovação e recebimento
O solicitante encaminha o comprovante pelos canais indicados para recebimento do certificado/documento correspondente. O Portal informa duração de até 3 dias úteis nessa etapa.
8. Custos, gratuidade e ressarcimento operacional
Serviços de campo dependem de fatores como local da execução, deslocamento de equipe, duração da campanha, complexidade da área, instrumentação necessária e escopo da entrega. Por isso, não é recomendável utilizar valores genéricos sem uma proposta formal.
9. Canais e dados de atendimento informados oficialmente
| Etapa | Canal | Prazo indicado | Contato |
|---|---|---|---|
| Agendamento | Até 3 dias úteis |
andrew@on.br benyosef@on.br |
|
| Visita técnica | Presencial |
Espera estimada de até 3 dias corridos; execução de até 3 dias + deslocamento. |
Local indicado pelo cliente |
| Pagamento / nota fiscal | FACC / telefone / atendimento indicado | Atendimento imediato; espera informada de até 15 minutos |
Rua Lauro Müller, 455, salas 208/209, Rio de Janeiro — RJ. Telefones informados no Portal: (21) 2141-7354 e (24) 2233-6033. |
| Recebimento do certificado | E-mail, fax ou postal | Até 3 dias úteis |
LDSM-ON — Rua General José Cristino, 77, São Cristóvão,
Rio de Janeiro — RJ, CEP 20921-400. Fax informado: (21) 2580-7081. |
10. Direitos dos usuários do serviço público
O atendimento ao usuário deve observar as diretrizes aplicáveis aos serviços públicos, incluindo os princípios previstos na Lei nº 13.460/2017, como urbanidade, respeito, acessibilidade, cortesia, presunção de boa-fé, igualdade, eficiência, segurança e ética.
O serviço oficial também remete às regras de atendimento prioritário previstas na Lei nº 10.048/2000 e legislação complementar aplicável.
11. Aplicações aeronáuticas e mitigação de riscos
Aeronaves modernas podem combinar diferentes fontes de informação de navegação e atitude, incluindo GNSS, sistemas inerciais, magnetômetros, bússolas e outros sensores. Dependendo da aeronave e da operação, os dados podem ser apresentados ou convertidos entre referências verdadeiras e magnéticas.
Nesse contexto, uma área de calibração magnética corretamente levantada oferece uma referência física confiável para procedimentos de verificação e compensação de instrumentos que dependam do campo magnético terrestre.
A existência de gradientes ou interferências magnéticas não identificadas no local pode degradar a qualidade dessas verificações. Daí a importância da sondagem magnética e da determinação independente do Norte Verdadeiro antes da implantação das marcações.
No caso específico da infraestrutura aeroportuária, o RBAC nº 154, atualmente na Emenda nº 09, disciplina requisitos de projeto de aeródromos e inclui critérios referentes aos designadores e à sinalização das pistas. A Emenda nº 09 foi aprovada em 2026 como parte da atualização das normas brasileiras aos padrões internacionais aplicáveis.
12. Anomalia Magnética do Atlântico Sul e contexto geofísico
Parte do território brasileiro encontra-se na região de influência da Anomalia Magnética do Atlântico Sul — AMAS, caracterizada por valores relativamente reduzidos da intensidade do campo geomagnético quando comparados a outras regiões do planeta.
O estudo da AMAS e das variações do campo terrestre integra a relevância científica do monitoramento geomagnético realizado no Brasil. Contudo, modelos globais, como o International Geomagnetic Reference Field — IGRF, descrevem o comportamento regional do campo e não substituem necessariamente a inspeção de campo quando o objetivo é identificar interferências ou microanomalias no ponto específico onde será instalada uma referência metrológica.
13. Desenvolvimento nacional de sensores e autonomia tecnológica
A capacidade de desenvolver sensores, construir magnetômetros, realizar calibrações e executar levantamentos geomagnéticos em território nacional reduz a dependência de soluções exclusivamente importadas e amplia a infraestrutura científica brasileira.
Essa competência possui aplicações em pesquisa geofísica, prospecção, monitoramento do campo terrestre, navegação, atividades aeronáuticas e navais e projetos de interesse de defesa.
O histórico do LDSM-ON demonstra essa capacidade por meio do desenvolvimento de tecnologia fluxgate nacional, exportação de sensores, fornecimento de magnetômetros à Marinha, apoio a instrumentos aeronáuticos e desenvolvimento de sistemas para expansão do monitoramento geomagnético brasileiro.
14. Conclusão
O serviço de levantamento de declinação magnética, estabelecimento e calibração de rosa-dos-ventos prestado pelo Observatório Nacional, por intermédio do LDSM-ON, constitui uma aplicação especializada da metrologia geomagnética brasileira.
Sua relevância decorre tanto da dinâmica natural do campo magnético terrestre quanto da necessidade de garantir que referências utilizadas para calibração estejam livres, na medida necessária ao serviço, de interferências capazes de comprometer medições.
A metodologia combina avaliação do magnetismo ambiental, determinação de referências geográficas, instrumentos geodésicos e magnetômetros especializados. Ao mesmo tempo, o histórico tecnológico do LDSM demonstra a capacidade brasileira de desenvolver e aplicar instrumentação magnética própria em atividades científicas, civis, aeronáuticas e militares.
Precisa analisar uma demanda técnica, documental ou regulatória?
O Direto Legaliza pode auxiliar na análise inicial do serviço, organização das informações e documentos e identificação dos canais oficiais adequados para a solicitação. Para requisitos estritamente metrológicos, execução de campo e emissão técnica, a definição deve ser realizada diretamente com o Observatório Nacional/LDSM.
Fontes oficiais consultadas
- Gov.br — Realizar levantamento de declinação magnética, estabelecimento e calibração de rosa-dos-ventos (LDSM-ON) .
- Observatório Nacional — Instrumentação em Geofísica / Metrologia (LDSM) .
- Observatório Nacional — Laboratório de Desenvolvimento de Sensores Magnéticos .
- Observatório Nacional — Geomagnetismo e Estações Magnéticas .
- Observatório Nacional — Estação magnética automática em Fernando de Noronha .
- Observatório Nacional — Desenvolvimento de magnetômetros para a Marinha do Brasil .
- ANAC — RBAC nº 154, Emenda nº 09 — Projeto de Aeródromos .
- ANAC — Resolução nº 802, de 18 de maio de 2026 .
- DECEA — AISWEB, publicações e informações aeronáuticas oficiais .
- Lei nº 13.460/2017 — Participação, proteção e defesa dos direitos do usuário dos serviços públicos .
- Lei nº 10.048/2000 — Atendimento prioritário .
Observação editorial: este conteúdo possui finalidade informativa e foi elaborado com base nas informações oficiais disponíveis na data da consulta. Prazos, contatos, custos, normas aeronáuticas e condições de prestação podem ser atualizados pelos órgãos competentes. Para execução de levantamentos, calibrações, certificações ou decisões operacionais, consulte diretamente o Observatório Nacional, o LDSM, a ANAC, o DECEA e as demais autoridades competentes, conforme o caso.
